10 de agosto de 2009

Maria Henriqueta tem dias…ora aqui, ora ali… a 29 de Maio de 1982, pelas 8:30 da manhã, um outro ser lhe cortara o cordão umbilical, que havia ligado a menina à sua mãe durante aqueles essenciais nove meses. Nascida em Lisboa, foi rápida a viagem de regresso, ao lugar do seu fabrico, São Sebastião, pequena aldeia, construída pelas suas gentes… pelos pais, pelos avós, bisavós, trisavós … Maria Henriqueta era dona do seu grande pedaço de terra, protegido pelos seus pais e pela irmã de cinco anos – o mundo era aquele lugar que acabava “lá ao fundo”, a toda a sua volta Henriqueta via aquela linha recta, onde acabava a terra e começava o céu…e, na qual, estranhamente, todos os dias nascia o sol de um lado e se punha do outro…estranhamente também, quando este se escondia, a lua surgia! Assim se encantava a pequena Henriqueta com os dias e as noites, ora com o pequeno céu que era só dela, ora com o mundo feito de terra que ela tão bem podia cheirar e onde livremente podia cravar as suas mãos … Ao lado dos avós, que lhe haviam oferecido um sachinho, experimentava fazer buracos, onde a seu lado, “nasciam montes”… encantada a pequena Henriqueta atirava-se para dentro do buraco – era fresco e cheirava bem, e descobriam-se muitos bichinhos por lá. O avô ensinara-lhe a pôr bolinhas dentro desses buracos, onde, “passados um dias”, iriam nascer ervas para comermos …mas essas ervas, também Henriqueta, as podia dar às ovelhas, aos porcos… os cães também as comiam… eles gostavam muito delas… O que a Henriqueta comia, ela via nascer daqueles buracos…as preferidas, eram as que apareciam dentro de uma folha verde, muito comprida! Quando as abria, comia as suas bolinhas – a avó dizia que eram ervilhas e que se comesse muitas ficava com bichos na barriga! Henriqueta, ás vezes, morava “numas” casas que o avô fazia na horta, tinham canas e folhas em vez de telhas e por entre as folhas nasciam feijões verdes que a avó apanhava e depois, apareciam na sopa cortados aos pedacinhos. Morava lá, enquanto a avó os apanhava e enquando o avô regava a horta... nesses dias, a Henriqueta podia molhar os pés naquela piscina coberta de folhas! Cheirava a fresco, e os pés ficavam cheios de terra! Na caixa “onde davam os bonecos”, havia um menino que tinha uma erva daquelas...ás vezes, crescia tanto que esse menino podia tocar nas nuvens! Mas aqueles não cresciam, estavam enrolados nas canas e não duravam muito tempo. Não faz mal, pensava Henriqueta! Ás árvores podia subi-las... e, o que Henriqueta gostava mesmo, era de ver os animais em que as nuvens se transformavam! A bisavó Maria fazia o mesmo, quando fazia sol, ia para a rua, e ficava sentada no sofá castanho-escuro da avó Deolinda… passava os dias a olhar para céu! O Tareco também gostava, mas um dia... Henriqueta cortou-lhe as barbas e nunca mais o viu…

4 comentários:

  1. as nossas raizes, as nossas recordações, no fundo akilo que somos e que para sempre permanecerá
    ainda tenho bem presente as vovltinhas de tractor até a pecuária com o avó e as inumeras historias de outros tempos que me contava e que lhe davam anos de vida, e a mim... semevam um sorriso, um sorriso de quem apenas sabia que muito queria aprender
    bem haja por esta memórias de sempre*

    Rita Dezoito

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  2. maria henriqueta .....consegues sempre supreender-me com a tua capacidade em escrever textos, excertos, frases, memórias, enfim... um ser surpreendente....

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  3. ....obrigado por nos dares a possibilidade de parar-mos....no nosso mundo atarefado....... Para podermos recordar a nossa infância ...... o nosso passado bom...faz-nos crescer..e já alguém dizia que "recordar é viver"..Bjos

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  4. Acho que tem seriamente de olhar para este seu talento de uma forma mais séria. Pois o caso é sério. Muitos Parabéns.

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